O Festival Rio Cello, reconhecido como a maior celebração de violoncelos do Brasil, realiza apresentações em múltiplos espaços urbanos da cidade do Rio de Janeiro. Em sua 32ª edição, que se inicia no sábado, dia 8, e segue até o domingo, dia 16, o evento oferece programação gratuita e inaugura com uma mostra de dança acompanhada por música brasileira nos jardins do Museu da República, localizado no bairro do Catete, zona sul da capital carioca.
Na abertura, a dançarina e coreógrafa Chris Cecconelo presta tributo a Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Ao seu lado, o cellista Lui Coimbra participa pela primeira vez do festival, acompanhado pelos violinistas Karolin Broosch e Thiago Cosmo. O evento conta ainda com a presença do grupo Amores do Rio, da Camerata Laranjeiras e dos corais Cantos da Urca e Cantos do Largo, sob a regência do maestro Jonas Hammar.
Além do Museu da República, as apresentações desta edição acontecem no Espaço Cenáculo, na região do Flamengo, na Casa Museu Eva Klabin, na Lagoa, e também em dois locais no centro da cidade: a Igreja de Nossa Senhora da Candelária e a Praça Pio X, além da Sala Cecília Meireles.
Idealizado inicialmente como um encontro de violoncelistas pelo músico inglês David Chew, que vive no Brasil há mais de quatro décadas, o Rio Cello evoluiu para uma das maiores celebrações de música clássica do país, incorporando diferentes instrumentos e expressões artísticas, como dança, artes visuais e educação musical.
David Chew mantém o propósito de democratizar o acesso à música clássica e homenagear o maestro Heitor Villa-Lobos, sua principal inspiração.
“Isso para mim é o grande lance do festival. Democratizar e ser aberto para o público. Qualquer pessoa pode ver e assistir”, declarou em entrevista.
O festival já alcançou mais de 500 mil espectadores ao longo dos anos, o que o idealizador considera uma trajetória de sucesso e realização.
A iniciativa teve origem após a chacina da Candelária, quando crianças e adolescentes em situação de rua foram assassinados por policiais nas proximidades da igreja no centro do Rio. Na época, David Chew estava na Orquestra Sinfônica Brasileira e foi chamado para auxiliar uma das sobreviventes, uma criança de cerca de cinco ou seis anos muito abalada.
Embora tenha tentado confortá-la com música, a criança chorava intensamente, e o músico saiu do encontro com uma forte dor de cabeça. Esse episódio motivou sua vontade de apoiar crianças em situação de vulnerabilidade, especialmente aquelas em comunidades. Para concretizar essa ideia, ele convocou amigos para colaborar no projeto do festival.
Este ano, o festival estreia o projeto Cello Kids, dedicado ao público infantil, com atividades específicas de formação e apresentação musical. No sábado, dia 15, o auditório do Museu da República recebe a Escolinha de Música Rio Cello das 11h às 12h, um programa de formação mantido durante o ano pelo festival.
Das 13h às 16h, ocorrerá a Oficina Cello Kids no Espaço Educação e nos jardins do museu, com participação de jovens cellistas, e também haverá apresentação do Coral das Marés.
Outra novidade é a celebração dos 20 anos do Cello Dance, projeto que une violoncelo e dança com apresentações inéditas de bailarinos que marcaram a história do festival. O projeto expandiu-se para locais diversos, incluindo estações de metrô, praças, museus e palcos ao ar livre, convidando o público a participar ativamente das cenas.
No encerramento do festival, no dia 16 às 11h, os jardins do Museu da República serão palco para o retorno à dança da primeira solista do Theatro Municipal nos anos 1990, Bettina Dalcanale, que também foi a primeira bailarina a integrar o projeto que precedeu o Cello Dance.
Bettina, que reside em Lisboa, Portugal, retorna ao Brasil para interpretar "O Canto do Cisne Negro", de Heitor Villa-Lobos, ao som do violoncelo de David Chew, fundador do festival.
Em entrevista, Bettina relatou que já participou de apresentações no Metrô da Pavuna e que inovou colando uma sola de borracha em sua sapatilha para evitar quedas. Ela destacou a emoção ao ver jovens dançando e como isso impactou suas vidas, citando o exemplo de um menino de 15 anos que começou a praticar balé após vê-la dançar.
Ela comentou sobre a importância de sua apresentação, especialmente por sua neta de cinco anos, que admira o balé e poderá ver sua avó dançar em um local tão significativo.
Bettina ressaltou que encerrou sua carreira de bailarina há 15 anos, após um balé no Theatro Municipal, e atuou como personal trainer para bailarinos do Royal Ballet, mantendo-se em atividade física, mesmo sem frequentar aulas regulares de balé há 16 anos.
Na coreografia de Mônica Barbosa, Bettina dançará descalça, enfatizando seu empenho para uma apresentação digna nessa ocasião especial.
“Acho que uma primeira bailarina topar dançar na grama é incrível. É uma coisa que me emociona”, observou David Chew.
A programação do encerramento inclui ainda apresentações de David Chew com as pianistas Fernanda Canaud e Claudia Tolipan, o grupo Cello Popular formado por Lauro Lira, Dave Haughey, David Chew e Mateus Ceccato, além de performances dos bailarinos Danilo D'Alma e Will Freitas, do multi-instrumentista DJ Muralhex e da obra "Três Filósofos", composta pelo cellista americano Dave Haughey especialmente para o festival, com interpretação de Haughey, Ceccato e Chew, acompanhados dos bailarinos Felipe Padilha, Inês Carijó e Monica Burity.
No dia anterior ao encerramento, ocorre o tradicional Violonsalada, às 17h, na Sala Cecília Meireles. O nome do evento sintetiza o espírito do festival, apresentando uma mistura de números variados dos artistas participantes, anunciados no momento no palco.
Desde sua fundação, mais de 10 mil artistas participaram do Rio Cello, que já promoveu shows em mais de 500 locais pelo Brasil. Entre esses, destacam-se o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o Cristo Redentor, o Palácio Itamaraty, as quadras das escolas de samba Mangueira e Beija-Flor, estações do metrô e comunidades como o Complexo da Maré, Pavão-Pavãozinho e Dona Marta.
Fiel à vocação de levar música clássica a lugares onde ela raramente chega, o festival também busca proporcionar às crianças das comunidades o acesso a locais culturais importantes, como o Theatro Municipal, o Museu do Amanhã e a Candelária, favorecendo experiências que geralmente lhes são inacessíveis.
O Rio Cello é atualmente financiado pela Prefeitura do Rio de Janeiro e pela Secretaria Municipal de Cultura, via Lei Municipal de Incentivo à Cultura, também conhecida como Lei do ISS. Apesar disso, nos primeiros anos, a obtenção de recursos foi um desafio, levando David Chew a buscar apoio em consulados, embaixadas e patronatos, incluindo o Itamaraty, que contribuiu significativamente para o festival. A produção permanece atenta aos editais de patrocínio para garantir a continuidade do evento.
Além das atividades em agosto, o projeto estará presente na Semana de Artes do Rio, entre os dias 16 e 20 de setembro, ampliando sua atuação cultural na cidade.